Quando a Linguagem Cria Muros: O Inglês Corporativo e as Barreiras Invisíveis da Comunicação

22 de agosto de 20263 min de leitura

A comunicação excessivamente anglicizada com terminologias como "call", "meeting", "report", "brainstorming", "feedback", "briefing", "featuring", "assessement" etc. virou uma febre criando estratificação e excluindo pessoas de processos de comunicação por não pertencerem a nichos que dominem essas expressões. É uma forma consciente ou não de levantar muros e gerar grupos fechados nos ambientes de negócio.

E há uma questão mais profunda aí: a linguagem não é apenas um meio neutro de comunicação; ela também pode funcionar como mecanismo de pertencimento, distinção e poder.

O problema não está em usar palavras inglesas. Algumas foram incorporadas ao português empresarial porque são úteis, específicas ou simplesmente se tornaram usuais. O problema começa quando a terminologia passa a valer mais do que aquilo que ela deveria comunicar.

Veja a diferença:

“Vamos fazer uma call” → “Vamos fazer uma ligação/reunião.” “Precisamos de um report” → “Precisamos de um relatório.” “Vamos fazer um assessment” → “Vamos fazer uma avaliação.” “Precisamos de um briefing” → “Precisamos de um resumo das informações necessárias.” “Vamos dar um feedback” → “Vamos conversar sobre o retorno da atividade.” “Vamos fazer um brainstorming” → “Vamos levantar ideias.”

Em muitos casos, não se perde absolutamente nada em utilizar o português.

E existe uma contradição interessante: ambientes que deveriam valorizar colaboração frequentemente adotam uma linguagem que dificulta a compreensão justamente para quem está fora daquele círculo profissional.

Isso cria uma espécie de fronteira linguística:

quem conhece o vocabulário pertence ao grupo; quem não conhece precisa primeiro aprender o código para então participar da conversa. E isso pode acontecer mesmo sem uma intenção consciente de excluir.

Há pelo menos três fenômenos envolvidos:

  1. Distinção social

A utilização de termos estrangeiros pode funcionar como marcador de formação, profissão, empresa ou posição hierárquica. É semelhante ao uso de jargões técnicos em outras áreas.

  1. Gatekeeping

Quando o vocabulário se torna excessivamente especializado, ele cria uma barreira de entrada. A pessoa não precisa apenas dominar seu trabalho; precisa dominar também o idioma particular daquele ambiente.

  1. Capital simbólico

Determinadas palavras passam a transmitir uma ideia de modernidade, sofisticação ou competência. “Assessment” pode parecer mais sofisticado que “avaliação”, embora conceitualmente possam significar exatamente a mesma coisa.

E existe uma ironia nisso tudo.

A comunicação corporativa deveria reduzir a distância entre pessoas. Quando o vocabulário vira demonstração de pertencimento, ela pode fazer exatamente o contrário.

Um bom profissional de comunicação, gestão ou liderança deveria ser capaz de fazer algo aparentemente simples, mas bastante sofisticado:

traduzir complexidade sem diminuir a complexidade. Isso é especialmente importante para quem trabalha entre áreas diferentes. Um diretor financeiro, um analista de dados, um operador de produção e um profissional de RH podem ter conhecimentos completamente distintos. Se cada área cria seu próprio dialeto, a organização começa a acumular ilhas de conhecimento.

E aí o problema deixa de ser linguístico.

Torna-se organizacional.

Uma empresa pode ter excelentes profissionais, sistemas sofisticados, grandes volumes de dados e inúmeras reuniões — e ainda assim possuir uma comunicação ruim porque as pessoas não compartilham o mesmo significado para as palavras que utilizam.

Talvez a questão central não seja:

“Por que usamos tantos termos em inglês?”

Mas:

“Para quem estamos falando?”

Porque quanto maior a responsabilidade de liderança, maior deveria ser a preocupação em tornar a mensagem compreensível, e não impressionante.

E há uma frase que resume bem essa ideia:

Conhecimento que precisa de um código secreto para ser compreendido deixa de ser instrumento de integração e começa a funcionar como instrumento de distinção.

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